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11 de dezembro de 2017

O PÂNICO



 


Não queiras, em hipótese alguma, enfrentar a ira de uma autoclave enferrujada, servindo bravamente a uma velha sanita, não muito confiável! Insisto. Em hipótese alguma!
Tudo transcorria normalmente, até com a chuvinha fina, muito bem-vinda por todos -  e fazia tempo que ela não aparecia -  pois estava tudo muito seco, desde a capital até o interior das terras no entorno do Porto, lá por Oliveira de Azeméis. O fogaréu nas matas de pinheiros e eucaliptos já havia matado muitas pessoas e interrompido as comunicações de várias estradas vicinais que cortam os encantadores vales de Ossela, cidade de meus antepassados e que visitava com alguns parentes. Depois a chuva aumentou, mas não tirou o ânimo de conhecermos tudo, nos mínimos detalhes. Era uma comitiva alegre e culta. Sabedor de minhas pretensões, um grande amigo preparou magnífico e interessante roteiro, com guia e tudo, para que visitássemos os sítios onde meus bisavós viveram e minha avó paterna nascera. Quanta alegria e ansiedade para conhecer tudo!  Significativa foi a visita à igreja do século XVII onde minha avó Emília foi batizada numa vetusta pia de pedra. Lá, também, poucos anos depois, recebeu este santo sacramento o escritor Ferreira de Castro -  ele mesmo -  o autor de “A Selva”, “A lã e a Neve” e muitas outras obras em que meu amigo Pedro Calheiros é especialista, analisando doutamente suas escrituras e escriturações. Muitas emoções estavam reservadas nessa visita.
A primeira ocorreu quando a chuva ficou mais forte e esbranquiçou o fundo da igreja, entre o altar-mor e a sacristia lateral que dá acesso à torre, recentemente restaurada. Por lá, surgiu o meu sumido amigo fantasma, todo paramentado, em grande estilo, com uma alva túnica inconsútil, própria dos grandes espíritos etéreos. Surgiu sorridente bem mais branco e radiante, pois estava em casa e me encontrou em terras conhecidas, onde viveu, também, em tempos memoriais, aventuras de muitos e variados tipos. Ele é incrível, ou fora incrível! Já não sei, pois sempre me confundo ao lidar com esse estranhamento, sui generis, onde a noção de tempo-espaço ainda não está totalmente definida em meus pensamentos.  Disse-me que sua alegria eterna estava a transbordar de ansiedade, pois como não podia se materializar para qualquer um, queria, porque queria desejar ao seleto grupo todo o sucesso em seu empreendimento. Acalmei-o. Seus desejos seriam transmitidos ao pessoal, sem que ninguém suspeitasse de minha sanidade mental. Já sou especialista em lidar com essas singelas e etéreas criaturas nefelibatas.
O grupo fotografava o interior da igreja, quando minha prima perguntou onde ficava a casa-de-banho. A segunda emoção do dia estava prestes a acontecer. Quem quisesse utilizar o banheiro teria de sair pela porta lateral sul, passar por cima dos inúmeros túmulos, estirados eclesiasticamente sob o piso de pedra da nave central, passar por uma calçada estreia e se servir daquela, talvez, única dependência que não estava plenamente restaurada. Foi seguida pela simpática guia. Entraram. Serviram-se. Mas, de repente, lá de dentro, veio a nos assustar um grito desesperador.
- Credo! Não acredito!
 - Como foi possível isso acontecer!  - E agora?
 - Perdi todas as fotos! - Estou sem comunicação com o mundo.
 - Não vivo sem celular!
E suava frio de raiva, desesperando-se com o terrível acidente, somente presenciado por nossa guia que nos acompanhava desde a chegada à vila de Oliveira de Azeméis. Foi ela quem disse, com seu sotaque carregado, repleto de tons consonantais vibrantes, o que tinha acontecido:
- “A menina deixou cair o telemóvel à sanita, puxou a autoclave, e entrou em pánico”!

ATÉ A PRÓXIMA 

4 de dezembro de 2017

A origem de Camboriú: um mistério ou um mister rio?




Muito se tem escrito sobre a influência do tupi na formação do léxico do português brasileiro, com a presença de elementos da língua de nossos índios na fauna, na flora, nas paisagens, na comida, na fraseologia, na onomástica, na toponímia, na hidromínia, na antroponímia e em nomes ou em falsos nomes próprios de homem e mulher.
Em primeiro lugar é importante salientar que no início da colonização do Brasil, bem no início do século XVI, a língua mais divulgada e usada entre os portugueses, no seio familiar e no contato com os índios, era o tupinambá. O tupinambá foi chamado de língua brasílica e usado também pelos missionários capuchinhos e jesuítas ao longo do século XVII.  Já a língua geral, utilizada no final do século XVII e início do século XVIII, sob o aspecto linguístico não designava mais aquela língua genuína de outrora. Era uma forma modificada, tida como equivalente ao tupi utilizado mais tarde pelos padres jesuítas.
Aryon  Dall’Igna Rodrigues, o pioneiro da aplicação dos modernos  métodos linguísticos aplicados às línguas indígenas do Brasil  e em especial ao tupinambá da época dos primeiros jesuítas, em seu livro Línguas Brasileiras. Para o conhecimento das línguas indígenas, São Paulo, Ed. Loyola, 1986, nos mostra que o termo tupi (de tupinambá), aparece no século XVIII e dizia respeito, inicialmente, à língua dos índios tupinambás, localizados no norte do Pará.
Wolf Dietrich, professor titular emérito do Instituto de Filologia Românica da Universidade de Münster, na Alemanha, e sócio correspondente da Academia Brasileira de Filologia (ABRAFIL), juntamente com Volker Noll, doutor e professor titular de Linguística Românica de Münster, Alemanha, no artigo O papel do tupi na formação do português brasileiro, in O português e o tupi no Brasil, Editora Contexto, São Paulo, 2010, acrescentam que esta denominação tupi servia para diferenciar a forma genuína do tupi, falado pela nação tupinambá, da língua geral amazônica... “que se formou no curso da expansão portuguesa na bacia do rio Amazonas nos séculos XVII e XVIII”, concordando plenamente com Aryon Dall’Igna Rodrigues. Continuando, afirmam os dois professores que “durante muito tempo”, o tupi, “serviu também de língua de comércio entre brancos e índios aloglotas”. Chamam, ainda, a atenção – e isso é muito importante – que só a partir do século XIX essa língua tupi foi chamada de nheengatu, do tupinambá nh’ë, “fala”, “língua”, + katu, “bom”, “forte”, “vigoroso”, “válido”, “autêntico”, nomenclatura que balizará as pesquisas e os estudos diacrônicos sobre as línguas da família tupi-guarani. Portanto, ficam aqui esclarecidos os empregos dos termos tupi e tupinambá.
               O surgimento de nomes, com efetiva presença da língua indígena, está ligado, ou à primitiva língua brasílica, o tupinambá, ou à língua geral já modificada, o tupi. Mas, grande influência mesmo teve o nheengatu, que, a partir do século XIX, passou a marcar muitos acidentes geográficos, objetos e uma grande diversidade de nomes de cidades, rios e povoados em nosso território.  Não quer dizer que outras nações indígenas que povoara outrora os sítios do atual Estado de Santa Catarina não tenham deixado a marca registrada de sua língua também em nossa fauna, flora, toponímia, fraseologia e nomes próprios de pessoa. Mas muitos nomes, principalmente os nomes onomásticos, que parecem ter surgidos no início de nossa colonização, entrando na língua portuguesa a partir dos primeiros envolvimentos entre índios e brancos, são termos praticamente recentes, do fim do século XIX, como parece ter ocorrido com o topônimo Camboriú. Cabe lembrar a colocação de Antônio Houaiss no Prefácio-Estudo do Dicionário histórico das palavras portuguesas de origem tupi, de Antônio Geraldo da Cunha, quando assim se pronuncia:


 É de suspeitar que três camadas distintas de topônimos tupis – ou brasílicos – coexistem hoje em dia: a dos topônimos dos próprios brasílicos de antes e durante os primeiros séculos de imposição colonial, a dos topônimos “tupinambizados” da língua geral de intercurso, que talvez reproduzissem os processos originais, talvez lhes acrescentassem ou diminuíssem algo, estilizando-os, e a dos topônimos tupinizados em operação consciente de composição por parte de tupinofonos, tupinizantes ou  tupinólogos – sem considerar defasagens regionais, como a amazônica, que deve repetir com certa modernidade o que ocorreu em outras áreas dois séculos antes” (in, CUNHA, 1999, p. 10).

Ademais, é sempre interessante lembrar que quase todos os sérios pesquisadores do século XX, professores de nosso idioma, filólogos eméritos da língua portuguesa, trabalharam com textos seiscentistas e setecentistas, dos padres jesuítas, como Anchieta, Nóbrega e outros, para estabelecerem os étimos históricos dos nomes de origem tupi. Eram filólogos e trabalhavam com textos. O linguista trabalha também com esses materiais, mas dá preferência à língua oral. A língua de nossos índios era ágrafa e sabe-se que diversos nomes de lugares, vilas, vilarejos, cidades, rios e muito mais, foram dados pelo homem branco, tomando como base a língua indígena, mesmo na época do estabelecimento daquele convívio bilíngue de que nos falam inúmeros historiadores, antropólogos e linguistas. Cabe saber como tudo aconteceu.
 Contudo, o método filológico não deve ser abandonado por pesquisadores que com essa metodologia podem abonar inúmeros termos relacionados à língua indígena, folheando, em cartórios, por exemplo, inúmeros tipos de documentos, como certidões, registros de compra e venda de escravos, cartas de alforria, leis, avisos de todos os tipos, sempre escritos pelo homem branco, como não poderia deixar de ser.
A busca das origens leva o pesquisador consciente a tecer inúmeras hipóteses e interpretações interessantes, respaldadas sempre em critérios sustentáveis e isso é importante para a ciência da etimologia.
Uma excelente e simples orientação aos etimólogos é encarar esse assunto como ciência e não como diversão ou passatempo. Mário Eduardo Viaro, da USP, um dos mais importantes etimólogos brasileiro, em seu livro Etimologia, adverte:

Etimologia e imaginação nem sempre fazem um bom casamento. Mais infeliz ainda é a tentativa de unir Etimologia e diversão, como se pode ver em muitas obras do gênero. A pesquisa etimológica, como uma edição científica, deve passar por muitas etapas rigorosas e, mesmo assim, as soluções de étimos são múltiplas e sujeitas a revisão. A situação, perante uma profusão de étimos (quando bons e dignos de avaliação) é apresentá-los sem uma solução definitiva, da mesma forma que muitas ciências o fazem seriamente com hipóteses não excludentes. Cabe a outros confirmar ou rejeitar tais hipóteses mediante a apresentação de novos dados e argumentos igualmente bem fundamentados. Não se pode provar uma etimologia apenas por meio de semelhança formal entre o étimo proposto e as palavras investigadas. Dadas duas línguas quaisquer, se um elemento de seu vocabulário é parecido ou idêntico, tanto no significante, quanto no significado, isso pode dever-se basicamente a três fatores distintos: coincidência, empréstimo ou origem comum” (In, Etimologia, Ed. Contexto, São Pulo, 2011, p. 97).

Assim, o pesquisador deverá levantar suas hipóteses, baseando-se sempre num arcabouço teórico bem definido. É o caso do pesquisador Lino João Dell’Antonio, em seu livro Nomes indígenas dos municípios catarinenses, Blumenau, 2009, que trabalha em bases filológicas, antropológicas e linguísticas, com segura  visão da realidade indígena. Diz que são poucas as análises etimológicas sem textos abonadores. Salienta, ainda, que “a toponímia pragmática, por ser a fiel expressão da raça indígena, é a parte mais importante do método de pesquisa”. Em suma, sua interessante tese, é a de que “qualquer topônimo indígena é uma definição pragmática da realidade externa” (Op. Cit., p. 42). Na procura das origens do termo Camboriú, nome de município e do rio que o corta, diz Lino João Dell’Antônio que não raro, muitos topônimos provêm de frases de uso frequente do dia-a-dia indígena. Como exemplo desta afirmação, cita a frase (sic) “caa amba y á”, ramos para cercar arroio. Caa = ramos; amba = cercar; y = rio; á = indica finalidade. Tal interpretação é também encontrada nos fundamentos linguísticos de A.J. Peralta e T. Osuna. Assim, Dell’Antonio, depois de longa exposição histórica, conclui sua investigação afirmando que Camboriú “é termo indígena e significa rio com camboas, em alusão às tapagens que se faziam para capturar peixes nas vazantes das marés”. (cf. op. cit. P.73)
Freire (Laudelino Freire, Grande e novíssimo dicionário da língua portuguesa, Rio de Janeiro, A Noite, 1930), anotou camboa como variante de gamboa e disse que Camboriú significa lugar em que remansa a água dos rios, dando aparência de lago tranquilo. Sua versão é a de que Camboriú significa onde o rio camba.
O IBGE (Enciclopédia dos municípios brasileiros, Rio de Janeiro, 1959), louvando-se em Lucas Boiteux (História de Santa Catarina – Resumo Didático -, São Paulo, Ed. Melhoramentos, 1919) que, por sua vez, se baseou na primeira edição de Theodoro Sampaio (O tupi na geografia nacional, São Paulo, Casa Eclética, 1901) afirma ser o termo Camboriú originário de “camby”, leite + “ri”, correndo + “y”, água, donde a expressão rio onde corre o leite.
Ainda Theodoro Sampaio, nessa primeira edição de seu livro, O tupi na geografia nacional, levanta a possibilidade de Camboriú significar rio dos robalos.
Reitz (Pe. Raulino Reitz, em artigo intitulado Camboriú significa criadouro de robalo, in Blumenau em Cadernos, t. 17, n. 4, abr, de 1976), baseado nessa última argumentação de Theodoro Sampaio, e vendo em “u” o significado de comer, sugere a hipótese do significado de Camboriú ser criadouro de robalos e não rio de robalos.
Patrianova (Hermes Justino Patrianova, em artigo intitulado Camburiú e não Camboriú, in Blumenau em Cadernos, t. 30, n. 9, set, de 1989) diz que Camboriú, em tempos passados, chamava-se Cambariguassu, de “camba”, significando seio + “ari”, em cima + “iguassu”, grande. Daí: seio grande em cima do morro.
Já para Wolf Dietrich e Volker Noll, Camboriú (SC) < kamburi + y = robalo d’água; rio dos camurins, tipo de peixe brasileiro, parecido com o robalo português do mar. De acordo, ainda, com esses mesmos autores, o étimo kambury ou kambory deu nome também a uma lagoa em Jacarepaguá, Rio de Janeiro, a Lagoa de Camorim, na zona oeste, com abundância desse peixe em épocas passadas.  
O historiador regional Isaque Borba Corrêa justifica a origem de Camboriú, ligando o topônimo ao étimo Camboriguassu, encontrado em documentos escritos do século XIX (Cf. CORRÊA, 1984), que passa a “Cambriú”, pela lei do menor esforço, e significa robalo grande. Mostra ainda que o primitivo nome do atual município de Camboriú era Cambriú, e isso pode ser encontrado - diz Isaque Borba -, nos cartórios da cidade de Camboriú. E completa: de Cambriú passou a Camboriú. Aqui, é importante assinalar que características do português brasileiro, inclusive algumas delas encontradas no seu léxico, podem e devem ser explicadas quanto à sua evolução ou transformação, estritamente dentro da linha histórica da evolução das línguas românicas conforme anotam Wolf Dietrich / Volker Noll, na obra aqui já citada. Portanto, precisa ser bem explicado o possível fenômeno fonético ocorrido aí nessa última hipótese (Cambriú > Camboriú), que poderia ser um anapitixe ou suarabati, desfazendo o encontro consonantal. Isaque Borba diz, ainda, que foi por influência do falar de padres, escrivãs e cidadãos de um modo geral, uns mais, outros menos instruídos, que, por eufonia, o povo transformou o termo primitivo. É bem possível ter ocorrido esse fenômeno de fonética histórica, a fim de se desfazer uma Realização Difícil ou, talvez, neste caso específico, para dar um toque eufônico ao topônimo. Por outro lado, tanto os representantes sociais do conservadorismo linguístico, como os usuários mais descuidados no uso da língua sempre se deixaram levar pela deriva da língua, o drift de Sapir, embora, inconscientemente, muitas vezes. Isaque Borba serviu-se, portanto, de textos, mas as justificativas linguísticas estão à espera de algumas explicações fonéticas que justifiquem com mais detalhes todas as alterações sofridas “ab ovo”, pois a origem histórica dos étimos primitivos em discussão (com suas combinações) deverá dar sustentação às alterações fonéticas sofridas pelos termos aglutinados, combinados e envolvidos, até o surgimento da forma final do topônimo.
Assim, entre todas as hipóteses etimológicas, deixando de lado muitas que aqui não apresentamos, a de João Lino Dell’Antonio e a de Isaque Borba são as mais consistentes, embora apresentem diferentes origens para Camboriú, que nos parece, realmente, ser um topônimo não muito antigo na onomástica catarinense, podendo até sua forma atual ser fruto daquele tipo de vocábulo construído pelo homem branco, ou um vocábulo “tupinambizado”, na nomenclatura de Antônio Houaiss, utilizando-se, para a sua formação final elementos da língua tupi ou do nheengatu. Parece, ainda, que faltou a todos esses estudiosos que tentaram buscar as origens do topônimo Camboriú mais explicações tácitas. Todos partiram, não só de uma visão antropológica, mas também de visões históricas, sociológicas e linguísticas e apontaram étimos tupis, como “caa”, ramos, galhos, ramagens ; “amba”, cercas  ou ainda  “camury” ou “camory”, peixe identificado com o robalo, e muitos outros, deixando somente de concluir, na linha das transformações fonéticas, como se chegou ao vocábulo Camboriú.
Porém, por tudo que apresentamos sobre as origens do topônimo Camboriú pode-se dizer que todas as hipóteses estão dentro de uma aceitabilidade investigativa com cientificidade, embora o raciocínio analógico, em alguns casos, tenha se manifestado como um dos germes recorrentes de explicações etimológicas, como mostramos no início, citando Mário Eduardo Viaro (Ver, VIARO, 2011, p.224).
Assim, acreditamos que todos os pesquisadores aqui mencionados, certamente, muito contribuíram, com sua visão crítico-analista, para a solução do mistério das origens desse vocábulo oxítono, nome misterioso de rio, um mister rio, um senhor rio, que batiza também dois dos mais belos recantos de Santa Catarina.  

 BIBLIOGRAFIA

CORNELSEN, Eugênio. Língua Guarany. Rio de Janeiro, 1937.
CORRÊA, Isaque Borba. História de duas cidades: Camboriú e Balneário Camboriú. B. Camboriú, Gráfica Camboriú, 1984.
CRISTAL, David. Dicionário de Linguística e Fonética, Rio de Janeiro, Zahar Editora, 1985.
CUNHA, Antônio Geraldo da. Dicionário etimológico Nova Fronteira da Língua Portuguesa. 2ª ed, Rio de Janeiro, Ed. Nova Fronteira, 1997.
CUNHA, Antônio Geraldo da. Dicionário histórico das palavras portuguesas de origem tupi, São Paulo, Ed. Melhoramentos, 1999.
DELL’ANTONIO, Lino João. Nomes indígenas dos municípios catarinenses – significado e origem – Blumenau, Ed. Odorizzi, 2009.
FILIPAK, Francisco. Curitiba e suas variantes toponímicas. Curitiba, 1999.
LÉVI-STRAUSS, Claude. Tristes trópicos. Tradução de Rosa Freire D’Aguiar, 10ª reimpressão, São Paulo, Companhia das Letras, 2010.
NASCENTES, Antenor. Dicionário etimológico da Língua Portuguesa, V.I e II. Rio de Janeiro, 1952.
RAMOS, Arthur. Introdução à antropologia brasileira: as culturas indígenas. Vol. II, Rio de Janeiro, Casa do Estudante, s/d.
PERALTA, A.J. ET OSUNA, T. Diccionário guarani-español y español-guaraní, B. Aires, Tuã, 1951.
SAPIR, Edward. Linguística como ciência. Tradução de J. Mattoso Câmara Jr., Rio de Janeiro, Livraria Acadêmica, 1961.
SILVA, Júlio Romão da. Evolução do estudo da língua tupi, 3ª ed, Rio de Janeiro, Edições MLG, 2000.
TIBIRIÇÁ, Luiz Caldas. Dicionário de topônimos brasileiros de origem tupi. São Paulo, Traço Editora, 1985.
TIBIRIÇÁ, Luiz Caldas. Dicionário guarani-português, São Paulo, Traço Editora, 1989.
 TIBIRIÇÁ, Luiz Caldas. Dicionário tupi-português. 2ª ed, São Paulo, Traço Editora, 1984.
VIARO, Mário Eduardo. Etimologia. São Paulo, Editora Contexto, 2011.
VOLKER, Noll et WOLF, Dietrich. O português e o tupi no Brasil. São Paulo, Editora Contexto, 2010.


ATÉ A PRÓXIMA

27 de outubro de 2017

SABER NÃO SEI, MAS POSSO TE AJUDAR!


O livro de Neuza Feijó Machado, “SABER NÃO SEI, MAS POSSO AJUDAR”, leitura destinada a crianças alfabetizadas das primeiras séries do Ensino Fundamental, publicado pela Editora Muiraquitã, Niterói, RJ, neste mês, será lançado em Portugal, no início da segunda metade do mês de novembro. A história trata da procura das raízes históricas da família de uma menina que ficou muito interessada em saber de onde vieram seus avós e bisavós paternos. Sua busca inicia dentro da própria família e vai crescendo, em círculos concêntricos de indagações e respostas, quase todas elas não muito positivas. A busca atinge pessoas do grupo de equivalentes, umas próximas outras mais distantes. A narrativa envolvente utiliza uma linguagem que beira o poético, predominando o discurso direto, chamando a atenção para o lúdico e para o encantamento. A leitura dramatizada em sala de aula, certamente envolverá o público-alvo infantil numa atmosfera de muita ansiedade pela descoberta. O desenrolar da história prenderá o leitor e seus ouvintes, no caso de narrativa dramatizada, não só pelo tema desenvolvido, através de sonoras aliterações rítmicas e muitas rimas toantes e sonantes, intercaladas nas frases, mas também pelas ilustrações, que são códigos não verbais, complementares e participantes do enredo. Tudo isso envolve a leitura no mágico e colorido mundo do faz-de-conta, dando asas à imaginação infantil. O bordão que dá título à obra e é sempre repetido por alguém indagado sobre as origens da família, prepara pedagogicamente o leitor, de forma explícita ou latente, para um fundamental exercício extraclasse, que é o da pesquisa, atividade docente que deve ser constantemente incentivada e realizada em sala de aula. Trata-se de uma obra didática e pedagogicamente correta, que nos envolve e provoca a reflexão sobre nossas origens, proporcionando inúmeros desdobramentos de nobres propósitos e de diversificados estudos programáticos futuros. O que mais chama a atenção no livro é, realmente, o tema dado para motivação dessa faixa etária dos primeiros anos de escolarização da criança. O tema das origens. A genealogia. A pesquisa sobre nossos antepassados mais próximos, que ainda fazem parte de nossa família, ainda lembrados. A família, nesse livro de Neuza Feijó, está presente como símbolo de demanda de felicidade. De algo importantíssimo que não pode ser deteriorado. De símbolo de união, de polo guardião dos mais significativos valores éticos e morais. Por outro lado, procuramos em variados catálogos de editoras nacionais que publicam livros infantis, obras relacionadas às raízes familiares e à genealogia. Nada foi encontrado.  Atendendo a uma pedagogia inicial, com temas próximos à diversão, ao prazer lúdico e campo semântico afim, há uma quantidade enorme de obras que desenvolvem a magicidade articulada à participação de personagens do mundo animal, como sereias, peixes, coelhos, besouros e filhotes de aves e mamíferos. Na linha de uma pedagogia direcionada mais a crianças com um hábito de leitura já sedimentado ou em fase de sedimentação, pelo prazer de ler, encontramos temas desenvolvidos nesses livros, como as lendas universais e as fábulas tradicionais, adaptadas a essa faixa etária e muitas histórias, que recorrem, também, a contos clássicos, como o da Branca de Neve, Chapeuzinho Vermelho, A bela adormecida, João e o pé de feijão. Mas não encontramos nenhum texto com o tema desenvolvido por Neuza Feijó em “SABER NÃO SEI, MAS POSSO AJUDAR”, que a Editora Muiraquitã, em boa hora, lança no importante mercado do livro infantil. Vale a pena conferir.

ATÉ A PRÓXIMA

9 de outubro de 2017

FOGO NA LENHA E NOS CORAÇÕES






FOGÃO A LENHA

Fogão que faz as vezes de lareira!
Local onde, já cedo, a cada dia,
buscamos liberar a energia
do sol como estocado na madeira.

Local onde, de forma rotineira,
com jeito, sem qualquer sabedoria,
usamos, numa espécie de magia,
o sol sob as panelas e a chaleira.

Como esse, da cozinha, aceso e quente,
exista um fogão dentro da gente
com dispersão de ondas aquecidas!

Que nossos abrasados corações
mobilizando o Sol, como fogões,
aqueçam relações arrefecidas!

            Estamos diante de um dos mais lindos sonetos de temática interiorana da Literatura Brasileira. Seu autor, também do interior do Brasil, nascido em Ilhota, Santa Catarina, atualmente mora em Blumenau, uma cidade de maiores dimensões, onde se aposentou, sem antes muito labutar em variados segmentos produtivos, inclusive, no magistério superior. Mas sua verve poética respira a temática intimista e, muitas vezes, discorre sobre temas do cotidiano, deixando aí transparecer sua identificação com os momentos da vida pacata desses bucólicos e aprazíveis lugares de nossas  regiões interioranas.
            Ayrton é um mestre na criação harmônica de seus decassílabos, sáficos e heroicos, misturando as estrofações, aleatoriamente, mas mantendo um ritmo fortemente comprometido, sempre, com o desenvolvimento temático de suas composições. Refiro-me às estrofações dos tipos ABAB  E  ABBA, nas quadras de seus sonetos.
            O soneto em destaque, FOGÃO A LENHA é uma primorosa composição de cunho imprecativo, como súplica poética, usando os modos verbais adequados para tanto: “exista um fogão dentro da gente”; “aqueçam relações arrefecidas!”. Tal situação inclui, também, o soneto na ordem dos discursos filosóficos, com tratamento comezinho.
O desenvolvimento do tema, que é o retorno ao convívio sadio e amoroso das relações interpessoais, apropria-se de antigas imagens, como “o calor do sol” e “o fogo da lareira”, mas a maestria e a sensibilidade lírica  de Ayrton Mafra,  criaram uma nova forma expressiva, num inconfundível estranhamento poético: “Como esse, da cozinha, aceso e quente, / exista um fogão dentro da gente”. É uma inédita metáfora, a do aquecimento do sol e o aquecimento dessas mesmas relações degradadas, carcomidas, talvez, pelas mesmices do dia-a-dia, no convívio permanente.   
Já o tratamento dado pelo poeta às estruturas mórficas do poema é o outro ponto fundamental para o êxito da enorme dimensão artística do soneto. Na primeira quadra o enjambment encontrado entre o terceiro e o quarto versos -  “buscamos liberar a energia / do sol como estocado na madeira” – imprime à narrativa lírica, servindo-se também de expressiva hipálage, o ritmo crepitante do fogo a alastrar-se, tendo o vocábulo COMO (4º verso) o sentido de enquanto, conjunção adverbial temporal, e não uma simples conjunção comparativa.
 O primeiro terceto, onde inicia a transfiguração da realidade, passando-se do plano das ideias concebidas para as ideias pretendidas, isto é, onde se unem os diversos elementos da metamorfose poética, esse primeiro terceto – insistimos – é composto por expressivo hipérbato, envolvendo a elipse do termo FOGÃO, enquanto sujeito, subentendido, facilmente, pelo leitor, como se estivesse presencialmente grafado, tal a força retórica desta construção. Uma estrutura frasal elaboradíssima, beirando a técnica dos versos imprecativos de Augusto dos Anjos.
A chave-de-ouro do soneto insere-se numa comparação tácita, deixando-nos mentalmente contemplativos, absorvidos pela beleza da criação poética, uma marca registrada desse grande poeta catarinense, que, em breve, lançará mais um livro de poesias, para nos emocionar cada vez mais, com suas encantadoras composições.

ATÉ A PRÓXIMA

15 de setembro de 2017

PARTITIVO NÃO É A MESMA COISA QUE POSVÉRBIO





 
Sempre ouço a CBN, “A RÁDIO QUE TOCA NOTÍCIA”, como diz, com precisão esclarecedora, seu slogan, muito bem idealizado. Gosto de sua programação e de seus quadros fixos, que tratam de política, finanças, artes e muitas outras formas de disseminar o conhecimento, de acordo com as cinco funções básicas da radiodifusão, que são a de informar, formar, divertir, prestar serviços e vender, não, necessariamente nessa ordem.
            O Presente comentário surgiu por eu ter ouvido nesta emissora, às 15h30min, do dia 15 de setembro, os comentários do Prof. Pasquale Cipro Neto sobre um caso de regência verbal. Um ouvinte perguntou ao mestre se, gramaticalmente, era correto o emprego de expressões do tipo “beber do vinho”, “comer do pão” e outras similares. O eminente professor foi às respostas, utilizando-se da letra da música de Chico Buarque de Holanda, Cálice (1973 – lançada 1978), destacando o verso: “Como beber dessa bebida amarga”. Sua resposta, como não podia deixar de ser, foi correta, mas insistiu em caracterizar esse fenômeno de regência verbal como um caso de PARTITIVO. Nós não usaríamos esse termo, ao explicar o fenômeno. Se não, vejamos:
“Partitivo”, em gramática, é a palavra que designa uma parte de um todo. Mas como isso funciona? Não existe uma única forma linguística que detenha, nela mesma, essa significação. Em outras palavras: o partitivo é o emprego de uma preposição relacionada a um verbo – um tipo de regência ocasional – modificando o sentido desse verbo, acrescentando-lhe algo além de seu significado conhecido. Por exemplo. A preposição DE em “COMI DO BOLO”. Comer o bolo significa ingerir um alimento, um doce, uma iguaria qualquer. Comer do bolo passa a significar comer parte daquele alimento; ou apenas um pedaço dele (ou comê-lo totalmente com muita vontade e prazer). Portanto, a preposição DE tem aí, nessa frase, um valor nocional, significativo, pois impõe novo significado à expressão, se compararmos a: COMI O BOLO. Isto é, a mesma expressão sem a preposição DE. Estamos diante de um caso de sintaxe de regência. Sabemos que há verbos que exigem complementos para sua total significação e esses complementos podem surgir com ou sem preposição. Esses complementos são os objetos direto e indireto. Bem, isso é conhecido de todos. O que, talvez, não seja muito conhecido é que esse fenômeno sintático recebeu o nome de POSVÉRBIO, dado por Antenor Nascentes. O partitivo existe, mas é diferente do posvérbio.
Em português, só é partitivo se a ideia introduzida pela preposição levar à noção de “parte”. Se eu quero dizer – sempre expressivamente - que parte do bolo foi comida, eu emprego “comi do bolo”. Da mesma forma, digo “beber do vinho”, se entender como “beber parte do vinho oferecido”, mas se ficar implícita a “necessidade indispensável da bebida”, como ficou no exemplo acima do “bolo”, cujo outro sentido foi colocado entre parênteses, talvez o termo PARTITIVO não possa ser empregado, por não estar verbalizada, na ação de beber, somente uma parte do líquido a ser sorvido. Evidente que há outros empregos verbais com outras preposições que não introduzem o sentido de PARTE, ou apresente oportunidades de mais de uma interpretação. Portanto, não é claro o nome PARTITIVO, nem seu uso é recomendável. Mas é inegável que o seu emprego é de uso expressivo na língua. É uma maneira conotativa de se expressar; é uma forma linguística que sensibiliza e chama atenção para a função poética da linguagem. Mas existe a forma abrangente para essas situações de linguagem expressiva no estudo da regência verbal, que nos foi dada pelo grande mestre Antenor Nascentes: é o POSVÉRBIO. Em português, é eminentemente uma forma expressiva, por se tratar de uma construção, onde se usa, depois de certos verbos, uma preposição que lhes modifica o sentido, acrescentando-lhes novo matiz, e não rege a palavra que serve de complemento a esses verbos. Essa preposição funcionará como verdadeiro MORFEMA (in, O problema da regência, Rio de Janeiro, Livraria Freitas Bastos, 1960, p.17). Vejamos alguns exemplos. A) Arrancar DA espada (acentua a ideia do uso da arma); B) Comer DO pão (acentua a presença indispensável do alimento); C) Cumprir COM o dever (acentua a ideia de obediência, de zelo); D) Perguntar POR alguém (denota curiosidade, interesse); Olhar PELA criança (acentua a carga afetiva, o cuidado). Antenor Nascentes mostra ainda que em inglês tal fato também ocorre. Exemplos: To go = ir; To go up = subir; To go dow = descer; To go in = entrar; To go out = sair (Idem, ibidem, p.16). Por outro lado, na gramática inglesa, o partitivo ocorre para indicar que um objeto é afetado apenas e parcialmente pelo verbo, não tendo efeito denotativo, real. Muitas vezes, corresponde às palavras "some”, alguns ou "any", qualquer. É semelhante, também, em muitos aspectos ao caso genitivo.
Portanto, devemos distinguir PARTITIVO de POSVÉRBIO. Em português se empregarmos o termo partitivo, podemos dizer que todo partitivo é um posvébio, mas nem todo posvébio é um partitivo, como ressaltam os exemplos dados.
Como sugestão aos meus leitores, creio que devemos aplicar a esses casos especiais e expressivos de regência, ou de regência expressiva, o termo POSVÉRBIO e não partitivo, menos por essa singela explicação e muito mais pela reverência que faremos ao grande mestre, Antenor Nascentes, autor dessa nomenclatura, meu professor na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (na época UDF), com quem troquei, alguns anos depois de formado, correspondências, inclusive sobre esse fenômeno do POSVÉRBIO, discutindo, ainda, temas linguísticos variadíssimos, muitos reunidos depois, no livro escrito por quatro professores do Instituto de Educação do Estado do Rio de Janeiro, “Português para o Curso Normal”, Rio de Janeiro, 1967, .... tendo sido aprovado, com louvor, por este grande filólogo, etimólogo, dialectólogo e lexicógrafo brasileiro.

ATÉ A PRÓXIMA                    

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Balneário Camboriú, Sul/Santa Catarina, Brazil
Sou professor adjunto aposentado da Universidade Federal Fluminense (UFF) e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Sou formado em Letras Clássicas pela UERJ. Pertenço à Academia Brasileira de Filologia (ABRAFIL), Cadeira Nº 28.