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15 de setembro de 2017

PARTITIVO NÃO É A MESMA COISA QUE POSVÉRBIO





 
Sempre ouço a CBN, “A RÁDIO QUE TOCA NOTÍCIA”, como diz, com precisão esclarecedora, seu slogan, muito bem idealizado. Gosto de sua programação e de seus quadros fixos, que tratam de política, finanças, artes e muitas outras formas de disseminar o conhecimento, de acordo com as cinco funções básicas da radiodifusão, que são a de informar, formar, divertir, prestar serviços e vender, não, necessariamente nessa ordem.
            O Presente comentário surgiu por eu ter ouvido nesta emissora, às 15h30min, do dia 15 de setembro, os comentários do Prof. Pasquale Cipro Neto sobre um caso de regência verbal. Um ouvinte perguntou ao mestre se, gramaticalmente, era correto o emprego de expressões do tipo “beber do vinho”, “comer do pão” e outras similares. O eminente professor foi às respostas, utilizando-se da letra da música de Chico Buarque de Holanda, Cálice (1973 – lançada 1978), destacando o verso: “Como beber dessa bebida amarga”. Sua resposta, como não podia deixar de ser, foi correta, mas insistiu em caracterizar esse fenômeno de regência verbal como um caso de PARTITIVO. Nós não usaríamos esse termo, ao explicar o fenômeno. Se não, vejamos:
“Partitivo”, em gramática, é a palavra que designa uma parte de um todo. Mas como isso funciona? Não existe uma única forma linguística que detenha, nela mesma, essa significação. Em outras palavras: o partitivo é o emprego de uma preposição relacionada a um verbo – um tipo de regência ocasional – modificando o sentido desse verbo, acrescentando-lhe algo além de seu significado conhecido. Por exemplo. A preposição DE em “COMI DO BOLO”. Comer o bolo significa ingerir um alimento, um doce, uma iguaria qualquer. Comer do bolo passa a significar comer parte daquele alimento; ou apenas um pedaço dele (ou comê-lo totalmente com muita vontade e prazer). Portanto, a preposição DE tem aí, nessa frase, um valor nocional, significativo, pois impõe novo significado à expressão, se compararmos a: COMI O BOLO. Isto é, a mesma expressão sem a preposição DE. Estamos diante de um caso de sintaxe de regência. Sabemos que há verbos que exigem complementos para sua total significação e esses complementos podem surgir com ou sem preposição. Esses complementos são os objetos direto e indireto. Bem, isso é conhecido de todos. O que, talvez, não seja muito conhecido é que esse fenômeno sintático recebeu o nome de POSVÉRBIO, dado por Antenor Nascentes. O partitivo existe, mas é diferente do posvérbio.
Em português, só é partitivo se a ideia introduzida pela preposição levar à noção de “parte”. Se eu quero dizer – sempre expressivamente - que parte do bolo foi comida, eu emprego “comi do bolo”. Da mesma forma, digo “beber do vinho”, se entender como “beber parte do vinho oferecido”, mas se ficar implícita a “necessidade indispensável da bebida”, como ficou no exemplo acima do “bolo”, cujo outro sentido foi colocado entre parênteses, talvez o termo PARTITIVO não possa ser empregado, por não estar verbalizada, na ação de beber, somente uma parte do líquido a ser sorvido. Evidente que há outros empregos verbais com outras preposições que não introduzem o sentido de PARTE, ou apresente oportunidades de mais de uma interpretação. Portanto, não é claro o nome PARTITIVO, nem seu uso é recomendável. Mas é inegável que o seu emprego é de uso expressivo na língua. É uma maneira conotativa de se expressar; é uma forma linguística que sensibiliza e chama atenção para a função poética da linguagem. Mas existe a forma abrangente para essas situações de linguagem expressiva no estudo da regência verbal, que nos foi dada pelo grande mestre Antenor Nascentes: é o POSVÉRBIO. Em português, é eminentemente uma forma expressiva, por se tratar de uma construção, onde se usa, depois de certos verbos, uma preposição que lhes modifica o sentido, acrescentando-lhes novo matiz, e não rege a palavra que serve de complemento a esses verbos. Essa preposição funcionará como verdadeiro MORFEMA (in, O problema da regência, Rio de Janeiro, Livraria Freitas Bastos, 1960, p.17). Vejamos alguns exemplos. A) Arrancar DA espada (acentua a ideia do uso da arma); B) Comer DO pão (acentua a presença indispensável do alimento); C) Cumprir COM o dever (acentua a ideia de obediência, de zelo); D) Perguntar POR alguém (denota curiosidade, interesse); Olhar PELA criança (acentua a carga afetiva, o cuidado). Antenor Nascentes mostra ainda que em inglês tal fato também ocorre. Exemplos: To go = ir; To go up = subir; To go dow = descer; To go in = entrar; To go out = sair (Idem, ibidem, p.16). Por outro lado, na gramática inglesa, o partitivo ocorre para indicar que um objeto é afetado apenas e parcialmente pelo verbo, não tendo efeito denotativo, real. Muitas vezes, corresponde às palavras "some”, alguns ou "any", qualquer. É semelhante, também, em muitos aspectos ao caso genitivo.
Portanto, devemos distinguir PARTITIVO de POSVÉRBIO. Em português se empregarmos o termo partitivo, podemos dizer que todo partitivo é um posvébio, mas nem todo posvébio é um partitivo, como ressaltam os exemplos dados.
Como sugestão aos meus leitores, creio que devemos aplicar a esses casos especiais e expressivos de regência, ou de regência expressiva, o termo POSVÉRBIO e não partitivo, menos por essa singela explicação e muito mais pela reverência que faremos ao grande mestre, Antenor Nascentes, autor dessa nomenclatura, meu professor na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (na época UDF), com quem troquei, alguns anos depois de formado, correspondências, inclusive sobre esse fenômeno do POSVÉRBIO, discutindo, ainda, temas linguísticos variadíssimos, muitos reunidos depois, no livro escrito por quatro professores do Instituto de Educação do Estado do Rio de Janeiro, “Português para o Curso Normal”, Rio de Janeiro, 1967, .... tendo sido aprovado, com louvor, por este grande filólogo, etimólogo, dialectólogo e lexicógrafo brasileiro.

ATÉ A PRÓXIMA                    

5 de setembro de 2017

Artesanato vocabular no “Cancioneiro do Natal” de Stella Leonardos




Há 65 anos publiquei no “Jornal do Commercio” do Rio de Janeiro, no Caderno de Cultura, um artigo intitulado Artesanato vocabular no “Cancioneiro do Natal”. Cancioneiro do Natal é um livro de poemas de Stella Leonardos, cuja Primeira Edição, saiu, no Rio de Janeiro, editado pela Livraria São José, em 1964. Recebi-o da autora, autografado. São comentários críticos, formulados, a partir de uma crítica intrínseca, ainda não muito cultivada na época, mas que eu seguia rigidamente, orientado que fui por excelentes mestres, atentos à modernidade que envolve qualquer ciência e que não foi diferente com a Crítica Literária. Muito aprendi com estes professores com quem, mesmo depois de formado, mantive relacionamento de profunda e fraterna amizade. A eles, minha eterna saudade, pois me ensinaram que o texto literário pode ser esmiuçado – e deve – com toda a emoção da exegese, mas também com cientificidade, a qual deverá incidir nas diversas análises que levarão ao leitor explicações seguras sobre o contínuo transformar e o constante fazer literário. A meus mestres amigos, que hoje são referência para os estudos da Crítica Literária, Textual e Filológica, minha saudação e reverência: Tasso da Silveira; Leodegário A. de Azevedo Filho, Afrânio Coutinho, Joaquim Ribeiro, Eduardo Portella, Jesus Bello Galvão, Sílvio Elia, Jairo Dias de Carvalho.

Passados mais de meio século, republico este artigo, procurando homenagear a grande poetisa, Stella Leonardos que, com seus 94 anos de arte poética e com sua extensa e significativa obra literária, já está eternizada na história da Literatura Brasileira, como pertencente à Terceira Geração do Modernismo. É claro que se fosse reescrevê-lo, o faria com outra visão teórica, mas atentando para os significativos empregos de um vocabulário inovador para a sua época e rico em significados subjacentes. São inúmeros os seus livros premiados e, entre eles, Poesia em 3 Tempos (1957), Cancioneiro do Natal (1964), Geolírica (1966), Cantabile (1967), Amanhecência (1974), Romanceiro da Abolição (1986) e tantos outros. 

Segue o texto cinquentão:

“Cancioneiro do Natal” é um dos mais recentes livros de poesia de Stella Leonados, lançado pela Livraria São José, em 1964. Poesia da mais alta sensibilidade estética, impregnada de lirismo impressionista (“E a Estrela ia roçar nosso telhado”), num ritmo que se distribui vivo e sonoro nas duas partes da obra. Em Natal no Brasil o metro é curto, redondilhas, principalmente, envolvendo-nos o tema natalino, inspirado em nosso folclore. Contudo, é a arte de criar novos vocábulos que mais destaque dá à forma, manejando a autora, com rigorosa precisão linguística, o processo da composição e da derivação. Vejamos: “– o pedaço mais arco-íris”, p.11. O semantema nome arco-íris, com função adjetiva, visualiza todas as suas cores, transmitindo-nos esta impressão e também impondo a sua presença por ser, ao mesmo tempo, semantema nome e com função adjetiva. Assim, é a derivação imprópria realizada pela altura. Adjetivações de substantivos: “e nos teus olhos garotos” (p. 11). E esta adjetivação: “berços de noite inocência” (p. 12); “tão eco de Natais inesquecíveis” (p.15); “E pensar que sonhei de alma garota” (p.17); “Essa graça tão flor de quase incrível” (p.19); “Dia mago, barba luz e alvo manto” (p.20); “Dei-lhe uma viola bruxedo” (p.98); “Dá sorrisos cor simpleza” (p.103). A substantivação do verbo: “e irei de encontro ao rir das mesmas vozes” (p.13). O semantema dinâmico –rir- se torna estático, sem tempo, sem aspecto, sem continuidade, retratando uma só realidade não fugaz. A adjetivação do advérbio: “Este Natal a ti, meu sempre motivo de viver e curtir vida” (p.15). Substantivação do adjetivo: “e as sombras desses longes vão de encontro às sombras de meu ido coração” (p.18). Pela falta de expressividade da função adjetiva de –longe- para retratar a sua realidade, a poetisa o transforma em nome (semantema) com função de “coisa”, de algo que pertence ao mundo dos objetos: (os longes). O emprego do substantivo pelo adjetivo: “suspensa em fio mistério” (p. 26). Mistério é nome em função adjetiva. Substantivação do verbo: “do meu mirar” (p.42). É o dinâmico pelo estático. A valorização recai no fato e não na ação de mirar. Ainda: “dos mais elmos floresceres” (p.67). Substantivação do advérbio: “Viola e ganzá num sim” (p. 104). Toda esta criação está perfeitamente dentro das normas linguísticas da língua e do mesmo modo se apresentam os vocábulos  criados com apoio na composição. Expressões sintagmáticas são convertidas em novos e expressivos vocábulos, estruturalmente formados, foneticamente constituídos: “às minhas mãos fragi-leves” (p.11); “manhã de sobre-rosados” (p.12); “e soltam riso-pássaros” (p.12); “menina acordarei de olhos-saudade” (p. 12); “E teus olhos-céus, imperceptíveis” (p.14); “alegroandante o meu sonhar ingênuo” (p.16); “um dezembro sofrido, verdiescuros” (p. 18); “e o mago o azul-rei da noite santa”(p.20); “E então nos compôs-céus os nuvenbrancos” (p.20); “com toques-milagres” (p.31); “marujo-esperança” (p.34); “de mar-esperanças” (p.35); “A cabecinha-de-vento” (p.43); “olha de olhos boas-vindas” (p.54); “chegam três vozes desnoras” (p.63); “descerram portas-auroras” (p. 63); “mil-e-uma-noites sonhadas” (p.73); “encenar cristãos-e-mouros” (p.73); “Barro-poesia nas horas” (p.76); “e as luzes de estrelas-guias” (p.77); “rumo às ruas-corações” (p.78); “alegrovivente” (p.78); Três Marias moças-flores” (p.82); “outros Meninos-Messias” (p.85); “boi-bumbada animação” (p.89); “boibumbante oi oi oi oi !” (p. 89); “Moça, é bicho engole-gente” (90); “de cabra e barba-de-bode” (p.90); “pele-de-Ceará nos olhos” (p.92); “indisfarsável-possante” (p.96); “rosa-chá pra xás da Pérsia” (p.97); “sonhos sem-fim indeléveis” (p.97); “alma das noites-segredo” (p.98); “tremeluzentes, e vagos” (p.101); “levam levas vozes-lágrimas” (p. 107), para citar, apenas, as mais expressivas.
Recorre ao processo da derivação com muito cuidado, utilizando todos os recursos da prefixação e da sufixação, sempre obedecendo às normas linguísticas: “de algodoada mansuetude” (p.27); “de reisado – então não sei?” (p.32); “jornadeava. Então, aos poucos” (p.37); “Jesusinho nos proteja!” (p.85); “Adeus, ex-alegres bichos, / ex-chicote de Mateus” (p.93).

As sugestivas onomatopeias aliteradas enriquecem este artesanato vocabular: “tiquibum quitibum bum!” (p.72) e “em que viera, lapo lapo” (p. 100).

Na quadra : “E segue empós do Vaqueiro. / Atrás do séquito simples,  / seguidores simples mente / seguidos de álacre ritmo” (p.104), encontramos no terceiro verso (“seguidores simples mente”) a bipartição formal do advércio – simplesmente – que nos apresenta duas palavras: - simples – e – mente - , dando ritmo visual ao verso. “Simples” é nome que se refere a – seguidores - , porém, com função adverbial.

Por conseguinte, “Cancioneiro do Natal”, é poesia da mais lírica inspiração e, sobretudo, manancial de rico e inesgotável campo para as pesquisas da microanálise estilística, obra com que a fina sensibilidade de Stella Leonados nos brinda e deleita.

LCSF, Rio, 2 de maio de 1965, Ano do Quarto Centenário da Cidade do Rio de Janeiro.

 ATÉ A PRÓXIMA














31 de agosto de 2017

UM CONSTRANGIMENTO



Vou comentar, como faço nesse espaço, TROVAS, TROVINHAS E TROVÕES, uma trova classificada em primeiro lugar no 5º concurso, da 5ª Etapa, intitulada Trovas para Uma Vida Melhor, na Busca da Paz, do Equilíbrio em Sociedade.

O Tema escolhido foi CONSTRANGIMENTO.

Absolutamente não quero ser um desmancha-prazeres na busca da paz e do equilíbrio em sociedade, o que, evidentemente, se assim procedesse, não poderia estar a serviço de qualquer estética, muito menos a serviço de uma vida melhor. Mas meus comentários críticos são sempre para melhorar o desempenho de nossa poesia, expressa também por essa forma de poema fixo, a trova, tradicional na lírica occitânica, em língua portuguesa.
A trova classificada em Primeiro lugar, de Julimar Andrade Vieira, de Aracaju, Sergipe, foi a seguinte:


“Constrangimento terrível
o ser humano suporta,
ao ver seu sonho impossível
tornar-se esperança morta”.


Em primeiro lugar, o tema desenvolvido por qualquer trova deve se apresentar em versos heptassilábicos, conhecidos como Redondilha Maior, tradicional da lírica da Península Ibérica, desde o século XII. Depois, o sentido, isto é, o significado que envolve os significantes deve estar impecável, quanto à semantização de toda a estrutura material do poema. Em outras palavras: a trova tem que ter sentido. Não pode ter meio sentido. E o que dá sentido ao texto poético?  São as estruturas sintáticas, e suas combinações, não só entre forma e conteúdo, mas, principalmente, entre as relações sintagmáticas na constituinte gramatical de todos os vocábulos, envolvidos em sua construção, com todos os seus significados denotativos, mesmo sendo empregados conotativamente, a serviço, inclusive, de uma estética da hermenêutica. Ora, vejamos a interpretação da referida trova de Julimar Vieira, acima transcrita. 


O ser humano suporta muita coisa, inclusive constrangimentos terríveis. Um deles é ver seu sonho POSSÍVEL tornar-se uma esperança morta. Aí está o grande constrangimento. Mas o poeta usou o significante “impossível”, deixando o conjunto sem nenhum sentido. Vamos burilar esses comentários. Sonhar é possível, pois todos nós sonhamos. Portanto, todo sonho é possível, mas não pertence ao real e, assim, não tem comprometimento com a vigília, além de não ter obrigatoriedade com o realizável. Quando se atesta a impossibilidade do sonho, aí, sim, ele se torna esperança morta, acabado, finalizado. Mas para que isso aconteça, o sonho tem que nascer possível, sem aquele prefixo - IN - que tirou todo o sentido do pensar poético. A voz do poeta, que materializou, em trova, esse pensamento, recheado de excelente conteúdo filosófico, se confundiu com os significantes da língua, numa incompetência da competência do falar, isto é, da parole, enquanto parte material da langue.  Por outro lado, pode haver nisso tudo, também, uma grande inverdade, causando ao crítico um imenso CONSTRANGIMENTO. Isso ocorreria se a presença desse incômodo prefixo de negação, / IN / tivesse sido colocado, pela empolgação de um copista distraído, fato que se caracterizaria como uma ultracorreção gramatical, modificando totalmente estes comentários. 

ATÉ A PRÓXIMA

25 de agosto de 2017

QUASE UMA DÍZIMA PERIÓDICA EM LINGUAGEM



- O que você faria se seu filho estivesse usando twitter? Perguntou o repórte.
- Eu dava uma surra nele que ele jamais poria essa porcaria na boca!
Sinto muita pena dessa minha gente humilde, boa, honesta e crédula, inclusive mantendo o maior respeito com o profissional da televisão, pensando que a pergunta fosse sobre a utilização de drogas. Pois é! Um repórter de TV fez essa pergunta, em tom de gozação, mas, creio que estava também buscando resultados, possivelmente encomendados pela sua produção, procurando mostrar outras coisas, para futuras  pautas. Também usei, em meu ofício, artifício parecido, aliás, bastante parecido.
Certa ocasião, para mostrar aos meus alunos a arbitrariedade do signo linguístico e a função de gramaticidade da língua, enquanto sistema de signos, perguntei à turma se eles gostavam de GALOMA. Uns se comportaram como essa entrevistada, a moça que respondeu ao repórter, pensando até em algo impróprio e proibido de se usar. Outros perguntaram o que era GALOMA. Então, continuei, dizendo: - Vocês vão saber o que é, mas vejam essa frase que vou escrever no quadro-negro: “Lá em casa tem um pé de GALOMA, mas ainda está todo em flor”. Aí, um aluno esperto, disse: - No sítio de meu avô tem muito pé de GALOMA. É uma fruta muito doce. Tentando levar a conversa com a turma para o meu plano de ação, em seguida, retruquei: - “GALOMA pode até ser fruta, mas GALOMA, agora, é um verbo. E vocês todos sabem conjugá-lo. Vamos conjugar esse verbo? Que verbo é esse? - GALOMAR respondeu toda a turma, uns rindo e outros mais compenetrados, à espera de alguma coisa muito importante, que viria por aí e que eles não sabiam bem o que era. E continuei animado: “Eu galomo, tu galomas, ele galoma, nós galomamos, vós galomais, eles galomam”. Um outro aluno bem atento, ou provocador, perguntou lá do fundo da classe: - Professor, GALOMAR é verbo transitivo direto, indireto ou intransitivo. Eu respondi:  - “É transitivo direto, pede objeto direto, sem preposição. Senão, vejamos este período, que eu vou escrever bem embaixo do primeiro, agora, com giz amarelo.  E caprichei com letras bem arredondadas: ONTEM EU GALOMEI UM LINDO AZERUTAN. Qual é o objeto direto? Todos, estrondosamente, responderam: AZERUTAN ! Aí, começou tudo de novo... Entenderam, né?


ATÉ A PROXIMA


12 de agosto de 2017

A GALINHA COMEU




O que eu vou contar hoje é só para aqueles que viveram o tempo, onde uma expressão de “bullying” para gozar os trabalhadores da limpeza urbana era muito comum, principalmente no Rio de Janeiro. Isso há muito tempo... Era um sábado e o trânsito fluía encantadoramente. Percebi que não me atrasaria para o encontro marcado com meu amigo, no clube da cidade. Ledo engano. Mal dobrei o sinal, ou a sinaleira, como costumam chamar aquelas três luzes coloridas do trânsito, por estas bandas do sul, onde agora resido, vi tudo parado. Pensei num baita desastre, pois os fins de semana são tranquilos nas ruas esburacadas dessa bela cidade germânica, fundada pelo Dr. Hermann Blumenau, há muitos e muitos anos... O mais estranho é que se ouvia uma berraria danada. Umas músicas esquisitas, cantadas e esgoeladas por alguém de voz de taquara rachada. E quem cantava corria em redor de um enorme veículo verde, roncando o motor, na frente de carros que, educadamente não buzinavam. Percebi que a companhia de limpeza urbana estava trabalhando, não em silencio, mas euforicamente, na voz de um dos alegres lixeiros que pulava do balaústre traseiro do grande veículo, para as calçadas, recolhendo os sacos pretos e as caçambas de detritos das casas e dos prédios, cantando alto e bulindo com os passantes, chamando, mesmo, a atenção de todo mundo. Feliz com seu ofício ia se retorcendo agilmente da traseira do caminhão para o meio-fio das calçadas, com uma satisfação emocionante naquilo que fazia, nem se importando com o cheiro desagradável que saía de alguns sacos de lixo, já rasgados por cães vadios da cidade. Muitos carros à minha frente conseguiram trocar de faixa de rolamento e eu fiquei bem atrás da oficina de trabalho daquele jovem lixeiro, que parecia ter tirado a sorte grande, trabalhando penosa, mas alegremente num ofício, misto de picadeiro de circo e usina de reciclagem de dejetos urbanos. E o rapaz cantando, jogava todo o lixo lá para dentro. Pulava para todos os lados e não deixava um só saco negro na calçada. Apanhava dois, três ao mesmo tempo, e voltava para o estribo traseiro do caminhão, sempre falando muito alto e bulindo com todo mundo. Pelo caminho, às vezes, não havia nada para apanhar e o nosso herói ia, aos berros, dizendo gracinhas para os que passavam ou estavam parados na rua. Gritava e fazia piruetas, verdadeiras acrobacias na traseira do caminhão de lixo. Sua alegria extravagante, naquele trabalho insalubre, era também observado, com espanto, pelos motoristas dos carros que seguiam a procissão. Quando o caminhão passou por uma grande estação terminal de ônibus urbanos, cheia de gente, o rapaz exagerou e botou pra quebrar, caçoando de todo mundo, de maneira até quase desrespeitosa. Nesse momento, juro que ouvi, saindo lá de dentro, do fundo do tempo, uma voz cavernosa, lançando no ar um grito espetacular: A GALINHA COMEUUUUUUUUUUUU! Creio que ninguém entendeu aquele urro, um urro atemporal de “bullying” de rua, dos tempos de minha juventude, no Rio de Janeiro. Voltei ao passado alegre de minha infância, quando a gurizada gozava, inocentemente, todos os lixeiros, que se empoleiravam atrás de caminhões fedorentos de lixo, sem saber o que significava essa enigmática expressão, desconhecendo totalmente o valor daqueles trabalhadores que se engajavam num trabalho quase degradante, para deixar limpinha a cidade que nós todos sujávamos, infantilmente, sem nenhuma noção adquirida de cidadania... 

ATÉ A PRÓXIMA

1 de agosto de 2017

UMA TROVA HUMORÍSTICA









O ritmo inspiratório e expiratório do ato da respiração corresponde ao tempo da pronúncia de um verso de redondilha maior, ou heptassílabo, na língua portuguesa. Por isso, existem versos de rendondilha maior que são pronunciados nesse tempo subjetivo, muitas vezes, e que não correspondem aos parâmetros dos pés poéticos de nossa língua. Sabemos que em português há os seguintes pés métricos:

             troqueu ou trocaico: ó – o                                                                                 (ca – sa)
             jambo ou jâmbico: o – ó                                                                                   (can- tar)
             dáctilo ou dactílico: ó – o – o                                                                        (pá – li – do)
             anapesto ou anapéstico: o – o – ó                                                          (per – ce – ber)
             péon primo ou peão primeiro: ó – o – o – o                                         (ví – a – mo – lo)
             péon quarto ou peão quarto: o – o – o – ó                                         (re – vo – lu - ção)

Todos correspondem a vocábulos morfológicos ou a vocábulos fonéticos. Vocábulos morfológicos são as palavras da língua, com mais de uma sílaba. Ex. os substantivos, os adjetivos, os verbos, os advérbios, algumas preposições, algumas conjunções, algumas interjeições. Vocábulos fonéticos são vocábulos morfológicos que aglomerados formam um tipo de pé métrico. Ex. Visconde de Abaeté.
Observe: 1- na pronúncia, houve a queda da preposição DE.  Esse fenômeno é uma haplologia sintática. 2- em seguida, houve, ainda na pronúncia, a formação de um ditongo crescente intervocabular, formado pela última sílaba de VISCONDE e a primeira sílaba de ABAETÉ. /dya/.
É, também, importante salientar que na língua portuguesa não há a possibilidade de existir mais de três sílabas átonas seguidas, sem que uma se torne tônica. Portanto, não existe, em português, o seguinte pé métrico: (- o – o – o – o -), isto é, sequência de três sílabas átonas. Se houver, uma vai se tornar forte, tônica.
Assim, a pronúncia de Visconde de Abaeté será viscondyabaeté, formando dois pés métricos. Um jâmbico (o – ó), vis – com; e outro péon quarto (o – o – o – ó), dya – ba – e – té.    
Na métrica portuguesa os versos de duas a doze sílabas têm nomes especiais, de acordo com o número de sílabas, mas só apresentam cesura fixa rígida os versos decassílabos e alexandrinos, isto é, os de dez e doze sílabas métricas, respectivamente, e alguns outros. Portanto, os chamados versos menores não apresentam necessariamente cesura, isto é, não precisam se enquadrar nos tipos dos pés métricos apresentados acima. Contudo, os pés existem, pois foram adaptados à estrutura fônica da língua portuguesa, que é de ritmo intensivo e não de ritmo quantitativo, como o grego e o latim.  Joaquim Ribeiro dizia que o ritmo é tão presente na língua falada que até os xingamentos são vociferados em redondilha maior...
Isso posto, passemos a examinar, os versos da seguinte trova de Antônio Juraci Siqueira:

Cinco litros entornava!
Nunca vi alguém beber tanto!...
E, quando alguém perguntava,
dizia que era "pro santo".

Trata-se de versos heptassílabos como ocorre nas trovas, um tipo de poema de forma fixa, composto de quatro versos de sete sílabas métricas cada um, com rimas no esquema ABAB.
O que tentaremos ressaltar nessa análise é justamente um fenômeno fonético interessante, que ocorre em versos menores, quanto ao número de sílabas métricas, justamente aqueles que não apresentam cesura fixa. Ocorre que a pronúncia do verso desfaz a cesura que se consubstanciou, não fora propositadamente estabelecida no verso.  Isso ocorreu no segundo verso da trova. “Nunca vi alguém beber tanto”. Se aplicarmos as cesuras, teremos: Um pé anapéstico: NUN – CA - VI  (o – o – ó); um pé jâmbico: AL – GUÉM (o- ó); outro pé jâmbico: BE – BER (o – ó); e um pé trocaico: TAN – TO (ó – o). Mas na leitura, obtém-se sete sílabas métricas, desprezando-se os pés métricos, por força do surgimento de um tritongo, fenômeno fonético intervocabular / vyaw /, caso específico de sinalefa.
Concluindo, diríamos que o verso pode ter sete ou oito sílabas métricas, bastando o leitor focar a leitura, inconscientemente, nos pés métricos ou obedecer ao seu ouvido, buscando o ritmo heptassílabo, vindo do primeiro verso, que possui, indiscutivelmente, sete sílabas métricas, distribuídas pelos três vocábulos morfológicos: cinco, litros, entornava: um numeral, um substantivo e um verbo, todos vocábulos com plena significação semântica.  O terceiro verso da trova apresenta uma conjunção aditiva, que tem o papel fônico de compor a estrutura rítmica, apresentando o quarto e último verso uma sinalefa forçada, para compor, igualmente, o ritmo da redondilha maior.
Esta trova, um tipo de quadra, é uma peça humorística, onde a brincadeira compõe uma estrutura rítmica dentro dos padrões da língua portuguesa. Portanto, vimos que qualquer texto poético, estruturado ritmicamente, isto é, enquadrado dentro de parâmetros e regras de confecção, pode servir de matéria prima para a microanálise estrutural de formas e conteúdos. Trata-se de uma entre outras formas de poema fixo, que nos deu bom exemplo de um tipo de humor: o humor como riso.

9 de julho de 2017

Um divertido passeio linguístico







Sangão é um município catarinense a 18 km de Tubarão, na costa central do Estado, cortado pela BR 101. Também é um bairro do município de Criciúma.  Parece ser aumentativo de SANGA, subst. fem., rio pequeno, com pouca água; riacho. Mas pode ser voçoroca (do tupi). Então, SANGÃO seria um grande rio pequeno ou um grande pequeno rio. E mais, nesse município catarinense existe um bairro chamado SANGÃOZINHO. Seria, assim, um pequeno grande rio pequeno. Que coisa! Pensam que acabou? Tem mais. Lá, nesse bairro, existe o SANGÃOZINHO FUTEBOL CLUBE. Tentem pronunciar esse nome: parece que é SÃO GÃOZINHO. Um nome de santo. Pois é. Esse fenômeno fonético ocorre porque o ditongo nasal se evidencia no sintagma que possui extenso corpo fonético. Já isso não ocorre em SANGÃO, de reduzido corpo fonético.
O interessante é que, além da produtividade desse substantivo, a possível etimologia de SANGA estaria no Quicongo, uma língua banta, de Angola, África. Os escravos traficados trouxeram esse nome para o Brasil. E mais. No sul, onde a influência africana no vocabulário de nossa língua é menor do que no Sudeste, o vocábulo SANGA é de uso corriqueiro e até de uso poético. “Água de Sanga” é um bem construído livro de poesia de Colmar Duarte, lá de Uruguaiana, quase um poeta argentino... Abro um parêntese aqui para dizer que nos pampas junto às fronteiras, é comum se ouvir dizer que o povo rio-grandense é um povo miscigenado. É verdade,  mas lá, se diz que essa miscigenação foi entre o europeu (português e espanhol) e o índio. Não falam do negro. E SANGA é nome de origem africana, muito usado e produtivo, como vimos. Já o termo correspondente, VOÇOROCA, que é tupi, é pouco usado ou quase nunca empregado. Já no Paraná, esse termo é mais ouvido. Há até uma grande represa que fornece água potável para Curitiba que se chama Represa Voçoroca. Os termos tupis ocupam grande parte da onomástica catarinense e foi muito bem estudada por Lino João Dell’Antonio, no livro “Nomes Indígenas dos Municípios Catarinenses: significado e origem”. A tese desse autor é interessantíssima, pois o mesmo afirma que, sendo o índio nômade, ele marcava os lugares especiais com termos realmente significativos. Explico melhor. Em Santa Catarina qualquer rio é cheio de capivara. Então, um lugar ou um rio se chamar Capivari não acrescentaria absolutamente nada à orientação de ninguém. É interessante, pois, a análise – hipótese linguística - que o autor faz, também, da origem de LAGES, cidade importante no centro do planalto catarinense, aplicando sua teoria às origens do nome de LAGES, que diz ser uma corrupção linguística de “hayé” e significa atalho, uma referência ao atalho das Tijucas, feito por Cristóvão Pereira de Abreu, em 1733. Finalmente, aceitamos sua argumentação final, quando diz que muitos nomes de lugares foram dados pelo homem branco, utilizando termos da língua tupi.          
Tudo isso é fruto de anotações que faço em minhas viagens, quando tento observar as construções linguísticas de nosso povo e seus outros muitos comportamentos sociais. Procuro juntar essas observações em uma espécie de redação ou crônica-de-viagem, misturando curiosidades linguísticas com as mais diversas práticas esportivas, e entre elas o futebol, pois ele sempre está presente na vida simples, que corre junto às estradas por onde passo.
Assim, conversando na frente do SANGÃOZINHO FUTEBOL CLUBE com a rapaziada de plantão, nesses tempos de futebol nacional, onde Santa Catarina até já colocou quatro clubes para disputar a primeira divisão do campeonato brasileiro, resolvi saber alguma coisa sobre esse time de várzea. Disseram-me que tem poucos anos. Três ou quatro, mas já possui um terreiro para seus treinos e jogos: SANGÃOZINHO  X  VISITANTES estava escrito na entrada do campo, anunciando o próximo jogo.
Mas para finalizar, já que estamos falando de futebol, essa grande metalinguagem sociológica, não posso deixar de registrar aquela inusitada entrevista de um jovem repórter da Rádio Poti, do Rio Grande do Norte, que fora conversar, no fim da partida, com o jogador Dirran, do Clube Atlético Potengi, que perdeu para o Potyguar, da segunda divisão do campeonato do Rio Grande do Norte, no, então, famoso estádio Machadão. Embora seu time tivesse sido derrotado, Dirran foi considerado o craque do jogo.
REPÓRTER - “Você tem parentes na França? E esse seu nome é de origem francesa?”
DIRRAN -  “Não sinhô, meu apelido é CU de Rã, mas como num pode falar na rádio… então, eles abrevéia”.

ATÉ A PRÓXIMA

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Quem sou eu

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Balneário Camboriú, Sul/Santa Catarina, Brazil
Sou professor adjunto aposentado da Universidade Federal Fluminense (UFF) e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Sou formado em Letras Clássicas pela UERJ. Pertenço à Academia Brasileira de Filologia (ABRAFIL), Cadeira Nº 28.